642 coisas sobre as quais escrever #6

sexta-feira, 16 de outubro de 2015


Ayo! Estou de volta com o nosso meio abandonado 642 coisas sobre as quais escrever. Dessa vez, eu fiz o contrário do normal: em vez de escrever sobre o tema, eu tive a ideia primeiro e procurei por um tema que encaixasse - foi sorte eu ter achado )o) Escrevi tudo baseado no álbum Cry Baby da Melanie Martinez (do qual eu vou fazer um post só pra ele, aguardem!).

Mas um aviso: a história é meio pesada e trata de temas como traição, drogas, alcoolismo e homicídio. Ou seja, está bem pesada )o) Está avisado!
242. Uma família que mora na sua rua.

- Vocês viram? Os nossos vizinhos estão com um carro novo.
Patrick deu um sorriso torto, mas não olhou para a mãe. Por mais ridículo que fosse, falar da vida dos outros era interessante para a mulher.
- E daí?
A irmã de Patrick, treze anos, metida a rebelde e gótica vintage (como ela mesma dizia) fez uma expressão de desprezo forçada, o que fez Patrick alargar ainda mais o sorriso e abaixar ainda mais o rosto.
A mãe olhou para a filha reprovadoramente, mas não respondeu nada.
- Pat, levante a cara - disse o pai detrás do tablet (quem ainda lia jornais impressos?) - O café-da-manhã provavelmente não está tão interessante assim.
Patrick deu um suspiro silencioso antes de levantar o rosto com a feição mais indiferente que podia.
- É um carro caro, comentou a mãe de repente. Ainda falava da nova aquisição dos vizinhos. - Não entendo muito disso, mas parecia algo realmente só de pessoas bem-sucedidas. Ah, eles devem ser tão felizes.
- Não acho que um carro caro defina felicidade - a irmã disse com a voz mais alta que o necessário.
- Não, não é - Patrick falou pela primeira vez  - Dinheiro é bom, mas não é tudo.
- O dinheiro não deveria existir - resmungou a irmã - Só serve para deixar as pessoas ferradas e dar a ilusão de que elas são felizes.
- Cale a boca - respondeu Patrick tomando um gole de seu café - Dinheiro existe. E honestamente, é a melhor opção que temos. Se você quer mudar tudo, então vá para outro planeta. Ou exploda tudo por aqui. A nossa sociedade não vai mudar só porque você acha ela estúpida.
- Você é tão frio.
- Eu sou realista. - retrucou o garoto - E eles podem não ser felizes, mãe. As cortinas estão fechadas o tempo todo. Eles escondem alguma coisa.
- Ah, Sherlock está deduzindo, olhem só para ele - zombou a irmã.
- Ei, parem! - a mãe interferiu antes que aquilo fosse longe demais. - É bom vocês já saírem, não? 
- Está cedo ainda, mãe - a filha forçou mais uma expressão de raiva; mas só queria responder a mãe. Nos últimos dias, Patrick tinha percebido que ela se encontrava com os amigos na entrada da escola e todos iam até o McDonalds do outro lado da rua. A garota voltava para a escola quando as aulas acabavam, cheirando a cigarros e com o batom borrado.
- Bem, eu já vou saindo - Patrick se levantou, pegando a mochila pendurada na cadeira e colocando-a no ombro. -Até mais.
- Tchau, querido. Cuidado - a mãe mandou um beijo ao filho, que sorriu.
- Até depois - o pai disse simplesmente sem tirar os olhos do tablet. Patrick sorriu para aquilo também.
A irmã, seguindo sua fachada displicente, fingiu que o garoto não existia.
Patrick seguia a mesma rotina todos os dias até a escola. Já contara os passos. Eram 197. Mas naquele dia foi diferente. Estava mais cedo que o normal, e havia menos pessoas. Na verdade, uma única pessoa saiu de casa ao mesmo tempo que Patrick. Era a filha mais nova da família que morava do outro lado da rua - sim, aquela que estava de carro novo.
Ela tinha a idade de Patrick - dezesseis anos - mas ainda vestia-se como uma garotinha. Os cabelos castanhos estavam presos em duas maria-chiquinhas altas, com fitas azuis. Ela usava um vestido branco e azul, com detalhes de renda e estilo de boneca. A maquiagem era leve e não disfarçava as manchas escuras embaixo de seus olhos, inchados e vermelhos. 
"Bebê chorão" Patrick lembrou-se. Era assim que chamavam-a na escola. Bebê chorão, bebê chorão. Empurrada contra paredes, trancada sozinha nos banheiros, tendo seus cabelos puxados. É claro que Patrick vira ela. Por um grande tempo, ela fora a maior piada da escola. Mas então os valentões perceberam que ela não ligava para eles, e depois de ouvirem uma risada maníaca do banheiro onde haviam trancado a garota, a implicância cessou. Não quer dizer, porém, que ela parara de chorar.
A garota desceu lentamente as escadas para a calçada e olhou para Patrick, que ainda a encarava do outro lado da rua. Ela deu-lhe a língua, brincando. Patrick corou e desviou o olhar.
"Bobão", pensou ele, "só vai assustá-la ainda mais".
É verdade que Patrick sempre quisera ajudá-la dos valentões, mas... Ele era muito magro e fraco; provavelmente só iria piorar tudo se interferisse.
Ele caminhou até a escola, pela rua mesmo, já que a vizinhança era tranquila e estava cedo demais para passarem carros. Não percebeu que a garota estava andando ao lado dele até que ela sussurrou:
- O que achou do carro novo?
Com um sobressalto, Patrick virou-se. Aquela garota lia mentes? Ele se remexeu desconfortável.
- Vi sua mãe olhando pela janela, quando meu pai chegou ontem no carro novo - ela continuou, ainda num sussurro. Ela falava de modo peculiar, acentuando cada sílaba e entonando as palavras cantadamente - Ela parece uma mãe de subúrbio comum. Não fofocou com o resto da família?
Louca. Esquisita. Bizarra. Esses eram os adjetivos que usavam para aquela garota na escola, e pareciam ser verídicos. Porque, então, Patrick sentia-se tão fascinado por ela?
- É - murmurou o garoto - Falou. Disse que vocês deveriam ser muito felizes. A família perfeita.
A garota deu um sorrisinho indecifrável. Eles andaram mais alguns metros. Ela umedeceu os lábios. Ele esperou ansiosamente a fala dela.
- Quer saber um segredo? - disse ela em voz tão baixa que Patrick esforçou-se para ouvir. Ela levou o dedo aos lábios, avisando que eles nunca deveria falar sobre aquilo.
Patrick apenas fez um X sobre o coração. Jurando. A menina respirou fundo lentamente antes de falar:
- Meu pai se encontra com uma mulher quase todos os dias. Minha mãe bebe por causa disso, às vezes em um daqueles copinhos de bebê para ninguém perceber que é álcool. Meu irmão chega em casa muito drogado e fuma mais um pouco no quarto dele também. Nenhum deles sabe que eu sei. E agora, você sabe.
Patrick olhou para aquela garota. Ela realmente vivia aquilo? Todos os dias, uma família disfuncional... Claro, a família de Patrick tinha seus problemas. A mãe se importava demais com as aparências; o pai estava sucumbindo à necessidade de tecnologias; a irmã era estúpida e metia-se com coisas perigosas para parecer rebelde. Mas eles se amavam. Patrick sabia disso. Mas ela... Ela amava sua família, apesar de tudo?
- Eu os odeio - a resposta para a pergunta interna de Patrick veio - Sorria para a foto. Vista-se bem. Pareça feliz. Essa é a pior parte. Mas mesmo parecendo bem, você não está bem de verdade.
Ainda a olhando, Patrick deu um leve sorriso.
- Eu sei - foi tudo o que disse. Eles continuaram a caminhada até a escola lado a lado, em silêncio.
Estava muito cedo. Ninguém percebeu quando Patrick chegou acompanhado da garota mais estranha da vizinhança. Ele pretendia puxar conversa novamente, mas a menina já ia se esgueirando para os fundos da escola.
- E-Espera - chamou ele, baixinho. Ela se virou e o fitou com aqueles olhos inchados - Eu sou Patrick.
Ela deu um leve sorriso. 
- Foi bom te conhecer, Patrick - foi tudo o que disse antes de voltar a andar.
- Essa normalmente é a parte em que você diz o seu nome - Patrick interrompeu em tom de brincadeira.
- Eu não encaixo em "normalmente" - murmurou ela. 
Patrick pensou ter visto um vestígio de lágrimas quando ela se virou e correu, sumindo da vista dele.

***

Eram duas da manhã.
Haviam policiais na frente da casa de Patrick.
Não, não. Na frente da casa dela. Fazia três dias que ele não a via.
As luzes o acordaram. Patrick olhou pela janela e viu três viaturas. Uma porta arrombada e duas pessoas sonolentas do lado de fora - bem, uma delas estava bem acordada, mas tão drogada que dava no mesmo. 
Dois policiais saíram levando uma mulher algemada. Bêbada, completamente. Andava cambaleando, mas não largava da garrafa. Aparentemente, os policiais desistiram de tirar o licor da mulher.
E então...
Mais quatro policias. Cada dupla levando dois objetos grandes embrulhados em lençóis brancos, manchados de algo vermelho. Sangue, talvez? Os objetos eram do tamanho de corpos humanos.
O quê?
Não...
Patrick conseguiu pegar um saco plástico antes que tudo saísse. Cadáveres. Arrependera-se de abrir a janela. Lembrou-se de fechá-la antes de vomitar novamente por causa do cheiro.
A mulher bêbada foi enfiada na viatura. Ela mantinha uma expressão estranha - um misto de mágoa, arrependimento e pura loucura. Ela olhou diretamente para a garota de 16 anos, agarrada a uma boneca antiga de porcelana, os cabelos normalmente bem arrumados em maria-chiquinhas soltos e bagunçados. A mãe fez um movimento brusco, como uma fera enfurecida. E a filha retraiu-se um pouco, antes de sacudir o dedo do meio para a mãe com raiva.
Um sétimo policial saiu da casa, com um vaso de plantas. Tirou alguns sacos de lá. Maconha. Cannabis. O adolescente parado ao lado da garota teve um sobressalto. Alguns minutos depois, o irmão também era enfiado em uma viatura. Dois carros foram embora.
A última dupla de policiais entrou em seu próprio carro pouco depois, mas não partiu. Pelo que Patrick entendeu, a única restante daquela "família perfeita" queria juntar suas coisas antes de sair.
Patrick observou enquanto ela subiu as escadas saltitante e virou para olhar uma última vez para aquela vizinhança. Seus olhares se encontraram. Ela sorriu. Após certa hesitação, ele também.
E quando ela entrou na casa pulando e Patrick voltou para a cama pensativo, ele pensou ter ouvido uma risada alta e clara - vinda de um "bebê chorão".

Ouvindo: Álbum Cry Baby (Melanie Martinez)

Surpreendentemente, não pensei demais para escrever essa pequena história. Baseei-me principalmente nas músicas Dollhouse e Sippy Cup da Melanie Martinez, mas no final os personagens tomaram vida própria e eu simplesmente fui escrevendo. Não foi um final perfeito, mas eu estou satisfeita - porque eu escrevi sem muito trabalho. Foi ótimo, e foi uma das únicas vezes nesses tempos que eu realmente me animei escrevendo.

Como eu já tinha avisado, a história ficou meio pesada. Acho que gosto de coisas assim 8D Mas enfim, espero que tenham gostado~ 

Kissu ♥

2 comentários :

  1. Hannaaaaaaaaaah~ Tudo bom?
    Li todos os posts até agora mas tava meio complicado de parar para comentar, vou comentando com calma. Mas esse post não teve jeito, tenho que comentar! hahaha
    Estava super ansiosa desde que comentou deste texto a um tempo atrás... E olha... Estava certa em estar animada eim...
    Conforme fui lendo eu fui me lembrando das letras das músicas e de toda a vibe que a Melanie carrega, curti muito! É bem o estilo que gosto, meio realista e "dramático", por assim dizer~
    Fez um óootimo trabalho Hannah-chan >oo<!
    Podias fazer vários textos inspirados nas músicas desta diwa e depois fazer tipo uma coletânea e ir postando aqui, ia ser bem cool ~

    Bai bai flor~

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    1. Nayoooooooou~ )o)
      Haha, tenho estado assim também ;w; Acompanho tudo quanto é blog, mas parar e comentar tem sido difícil -q
      Yaaaay~ Estava muito animada trabalhando nesse texto, ainda bem que ficou bom ♥
      A vibe de Melanie é muito inspiradora, tente escrever ouvindo as músicas dela, é outra coisa! Gosto mais desse estilo realista e dramático também =w=
      Sim, queria muito fazer textinhos de outras músicas dela, como Mrs. Potato Head que é minha preferida ♥ Vou tentar fazer isso, com certeza!

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